Dos sistemas de assinatura às permissões esquecidas: casos envolvendo Binance, Bybit, Ledger e uma corretora brasileira mostram onde a proteção pode falhar.
Uma carteira pode continuar com a chave privada protegida e, ainda assim, perder ativos. Isso acontece quando uma assinatura legítima autoriza uma operação diferente daquela que o proprietário acreditava estar confirmando. Em outros ataques, o criminoso obtém a própria chave, o backup ou acesso ao serviço que assina transações.
Essa diferença ajuda a entender o caso Binance, abordado em reportagem do ConexoTech. Segundo a TRM Labs, as saídas em dez blockchains apontavam para um possível comprometimento da infraestrutura de assinatura das hot wallets. É uma avaliação da empresa de investigação, não uma conclusão definitiva sobre a porta de entrada do ataque.
Hot wallets: o alvo pode ser o sistema que autoriza os saques
Uma hot wallet mantém a capacidade de assinar operações disponível em ambiente conectado. Em uma corretora, ela atende a saques frequentes; uma reserva mantida fora desse ambiente exige outro procedimento para movimentação.
No relatório sobre a Binance, a TRM descreveu dois comportamentos. Em Ethereum, uma autorização EIP-7702 delegou o funcionamento de uma carteira a um contrato controlado pelo invasor. Em outras redes, ocorreram transferências com assinaturas comuns. A leitura da investigadora foi que o criminoso poderia ter conseguido fazer a infraestrutura da empresa assinar operações de sua escolha.
A distinção importa: observar uma assinatura válida não demonstra que alguém aprovou conscientemente aquela transferência. Também não comprova, por si só, que uma chave privada foi copiada. Pode haver comprometimento do processo de autorização.
Bybit: como uma interface enganou vários responsáveis pela carteira
O ataque de fevereiro de 2025 à Bybit oferece um caso mais detalhado. A Sygnia identificou JavaScript malicioso servido pela infraestrutura do Safe{Wallet}, ferramenta usada na operação. Sua reconstrução, reunindo achados próprios e informações de outras investigações, descreve o comprometimento de uma estação de desenvolvedor e o uso de credenciais para alcançar o ambiente em nuvem.
O código adulterado tinha uma condição específica para manipular a operação da carteira visada. Durante a transferência, a interface induzia os responsáveis a aprovar dados diferentes daqueles que acreditavam estar assinando. Depois da operação criminosa, a alteração foi removida.
A análise do NCC Group explica a consequência: a operação autorizada alterou a implementação do contrato da carteira, permitindo o desvio dos ativos. Não foi necessário descobrir todas as chaves dos responsáveis.
Uma carteira com múltiplas assinaturas distribui a aprovação entre pessoas. Entretanto, se todas conferem a mesma interface comprometida e não verificam independentemente o conteúdo, podem aprovar juntas a operação errada. É uma falha comum de confiança, mesmo quando existem vários dispositivos de assinatura.
Trezor e Ledger: o dispositivo protege a chave, mas o backup permite recuperar a carteira
As criptomoedas ficam registradas na blockchain. O dispositivo físico protege as chaves usadas para movimentá-las. A frase de recuperação permite reconstruir esse acesso; quando existe uma passphrase adicional, ela também precisa ser considerada.
Um falso suporte pode alegar uma atualização obrigatória e levar a vítima a preencher o backup em uma página. Com as informações necessárias, o invasor reconstrói a carteira em outro ambiente. O aparelho original pode continuar guardado, sem conexão e sem apresentar qualquer sinal de invasão.
Nesse cenário, trocar apenas o PIN do dispositivo não resolve: o criminoso já dispõe de outra forma de assinar. A Trezor orienta investigar a exposição do backup e, quando comprometido, migrar para uma carteira com novo backup, seguindo um procedimento seguro.
Há ainda o risco de importar a frase de uma carteira física em uma extensão de navegador. Isso coloca uma cópia das chaves em outro ambiente e muda a proteção que o usuário imaginava manter exclusivamente no dispositivo.
A carteira pode perder tokens sem que a seed seja roubada
Aplicativos descentralizados precisam de permissões para executar certas operações. Em redes compatíveis com Ethereum, uma autorização pode permitir que um contrato movimente determinado token até um limite definido.
O golpe explora essa função legítima. Uma página promete uma recompensa e apresenta uma aprovação excessiva ou uma assinatura que concede poderes ao atacante. Se a vítima confirma, o contrato pode movimentar os tokens abrangidos pela autorização sem pedir uma nova confirmação para cada retirada.
Isso não equivale automaticamente a controlar todas as moedas da carteira. O alcance depende do token, do contrato e da permissão assinada. A documentação da MetaMask distingue aprovações de tokens e golpes com assinaturas, incluindo os que exploram Permit2.
Fechar o site ou desconectar a carteira não revoga uma permissão registrada na blockchain. Retirar uma autorização e proteger uma chave exposta são respostas diferentes: a revogação não torna uma seed vazada segura novamente.
O caso Ledger Connect Kit: o perigo veio de uma biblioteca
Em dezembro de 2023, o Ledger Connect Kit, biblioteca usada por aplicações para conectar carteiras, recebeu versões maliciosas. Segundo o relatório da Ledger, o criminoso explorou o acesso de um ex-funcionário ao serviço de publicação de pacotes, acesso que não havia sido removido corretamente.
Aplicações que carregavam a biblioteca passaram a apresentar operações preparadas para drenar ativos quando assinadas. O incidente atingiu a cadeia de distribuição do software usado na interação com as carteiras; não demonstrou a extração generalizada de chaves dos chips dos dispositivos Ledger.
O episódio mostra por que reconhecer o domínio e possuir uma carteira física não encerram a verificação. Uma página legítima pode carregar uma dependência comprometida. A operação efetivamente assinada continua sendo decisiva.
Ataques físicos existem, mas dependem do modelo e das condições
Em 2020, o Kraken Security Labs publicou uma pesquisa sobre extração de seed em Trezor One e Model T mediante acesso físico e equipamento especializado. Era uma demonstração de laboratório contra aqueles modelos, não um ataque remoto aplicável a qualquer Trezor.
A Kraken apontou a passphrase como proteção para esse cenário. A documentação atual da Trezor também diferencia a arquitetura dos Model One e Model T daquela de dispositivos Safe com Secure Element. Portanto, uma pesquisa antiga precisa ser lida com modelo, data e condições de execução.
Para o proprietário, há duas frentes: proteger o acesso físico ao aparelho e proteger o backup. Uma não substitui a outra.
No Brasil, uma corretora perdeu o controle do próprio domínio
Em julho de 2018, Portal do Bitcoin e Livecoins noticiaram o sequestro do domínio da NegocieCoins. Na versão apresentada pela corretora, documentos falsos haviam sido usados para alterar a titularidade do endereço.
A página sob controle do invasor exigiu 20 BTC para devolver o domínio. Também passou a oferecer um suposto “Módulo de Proteção”, que a empresa orientou os clientes a não baixar. A corretora afirmou que os fundos e dados permaneciam seguros.
É um exemplo brasileiro concreto de ataque ao caminho usado pelo cliente para chegar à plataforma. Não comprova roubo das reservas da corretora. Seu paralelo com outros incidentes está no abuso da confiança em um endereço conhecido e na possibilidade de induzir o usuário a executar software ou fornecer informações.
Os portais brasileiros também ajudam a evitar uma confusão recorrente. Em março de 2018, o Portal do Bitcoin apurou saques duplicados na Foxbit, com perda aproximada de 30 BTC. A cobertura registrou uma falha operacional, não um ataque hacker. Indisponibilidade e perda financeira exigem investigação antes de receber essa classificação.
O que muda para quem usa uma corretora brasileira
Na conta de uma corretora, o usuário precisa proteger login, e-mail, sessões e autorizações de saque. Na autocustódia, precisa proteger backup, chaves e assinaturas. Uma senha forte do cliente não controla a infraestrutura de custódia da empresa; uma carteira física não desfaz uma permissão maliciosa que seu proprietário aprovou.
A proteção precisa acompanhar o ponto de falha: autenticação e monitoramento para contas; isolamento de chaves para armazenamento; verificação independente para assinaturas; revisão de permissões para contratos. Os casos pesquisados mostram que o acesso ao dinheiro pode ser obtido por caminhos diferentes — e que identificar o caminho é o primeiro passo para responder corretamente.
Leia também
- O caso Binance explicado pelo ConexoTech
- Como a Sygnia reconstruiu o ataque à Bybit
- O sequestro do domínio da NegocieCoins, no Portal do Bitcoin
Imagem de destaque: ilustração conceitual gerada por inteligência artificial para o ConexoTech.


